Quando escrevi o "Elefante-Rei: Poemas B" este foi o primeiro poema pronto, lembro do orgulho que senti, pois mesmo sendo tão simples, o poema retratou uma verdade íntima que eu guardei por muito tempo e que com o decorrer do tempo me livrei, mas de uma forma libertadora e sem pressão. Truques do destino.
Querido pai desencontrado,
os olhos são telhas de vidro,
o fruto em minhas mãos nasceu de tua árvore,
o teu amor-silêncio é unicamente
sangue, não é presença,
recebi amor estrangeiro ao nascer,
e a culpa não redimiu os meus pecados,
a glória na remissão dos meus pecados.
Mas o que não se desfaz,
o que não se esconde,
este sou eu e não uma cor verde,
este é o desejo sobre tua memória,
e a tua morte será o meu grito:
um castigo de dor que alivia.
Muito longe de ti
em voltas, cambalhotas, quedas.
Muito longe de ti
e a falta do teu divino reconhecimento
que para mim é tesouro sem pedras preciosas.
E já estou perdido nesta cidade,
inútil em pedir auxílio,
inútil como os descrentes nas ruas.
As ruas, as esquinas, as pessoas mortas,
o barulho, as coisas, as reações.
Sou escravo das ventanias da mente,
correntes prendem as tuas mãos,
mordaça em nossa boca,
minhas pernas arranhadas.
Sou escravo muito longe de ti,
os olhos são telhas de vidro,
um castigo de dor que alivia,
este sou eu e não uma cor verde.
Imagem: Nucleus Medical Art, Inc.